Comunicar não é falar

Toda experiência é recebida através do corpo e os canais de entrada são os cinco sentidos, e quatro sentidos, olfato, visão, audição e gustação, estão na cabeça, é como se aqui fosse uma central de comunicação; e o tato, que inclusive também tem na cabeça, mas é distribuído no corpo inteiro.

Para que eu possa sentir o gosto e o toque, o que  sinto através do tato, é preciso que tudo esteja muito próximo, que haja com – tato, e, pela audição, pelo olfato e pela visão, posso ver, ouvir e sentir os aromas a longa distância.

Na maioria das vezes, fica bloqueado. Então, há dificuldade na comunicação. E eu escuto as mães dizendo: ”eu falo, falo com meus filhos” ou a esposa com o marido, “eu falo, falo, com meu companheiro” ou companheira, e ela não me escuta, não me responde, não me atende, mas é que está falando, não está se comunicando.

Tem uma diferença entre fazer o ruído com a boca e usar com eficácia a palavra. Como é que eu posso saber que a minha comunicação está sendo eficaz? Quando eu escuto o que  falo; porque veja, isso é prerrogativa do ser humano, não tem outro ser no planeta que fale, que use os símbolos da palavra para expressar o que penso, o que sinto, o que me emociona, o que desejo, o que quero.

As vezes a pessoa tem uma dificuldade de expressão tão grande com ela mesma que ela não sabe o que quer dizer, ela não sabe que ela precisa expressar, ela não sabe o que ela está sentindo, ela não sabe o que ela quer, o que ela deseja de fato. Então, essa comunicação consigo mesmo truncada ocasiona, como consequência, uma dificuldade de comunicação com o outro, e o vínculo fica muito truncado em qualquer ambiente onde haja mais de uma pessoa.

Mas, mesmo se isolar uma pessoa durante 30 dias para que ela ficasse absolutamente sozinha, a confusão da comunicação com ela é muito intensa. Tem pessoas que tem um ruído interno tão grande, que elas não conseguem se silenciar para poder se ouvir ou ouvir o outro.

O excesso de rumor interno de pensamentos atrapalhados, muitas vozes dentro e  provoca uma ansiedade muito grande. E quando  a pessoa fala, fala ansiosa, sem ritmo pra falar, e as vezes a voz sai estridente e fere os ouvidos, então, as pessoas se afastam para não ouvir, acham desagradável aquele contato, mas a pessoa não percebe. Por que? Porque este canal entre a palavra dela e a própria audição está bloqueado, ela não percebe a fala dela mesma, então, ela não sabe nem o que está dizendo. Se eu não ouvir as pessoas, eu não posso trabalhar com elas, e esse é meu instrumento de trabalho: a minha palavra e meu ouvir. eu ouço e  pergunto, “você está ouvindo o que você está falando? Não, por que?

Porque se você não ouve o que está falando, fala depressa demais e se eu tiver que ouvir eu mesma não consigo falar depressa. Então, este ouvir vai baixando minha ansiedade e é um efeito ansiolítico maravilhoso, ficar ouvindo a sua própria voz.        Eu sei o que eu estou dizendo, então, quando eu me equivoco, eu mesma corrijo. Então faço perguntas que refletem na percepção do outro, como: “ você já reparou que você falou “tipo” 18 vezes?” Ou “entendeu”, 36 vezes? Eu conto, vou marcando. “Não, não percebi”. Continuo: “Você já percebeu que você repetiu isso que você falou 6 vezes já?” “Não, não percebi”, é sempre a resposta. Então, os outros também percebem, mas não dizem como um toque para a pessoa perceber e modificar. . Ninguém  diz ao outro, olha, você fala sobre você mesmo, você se refere a você mesmo na terceira pessoa, você diz você e não eu.

Perceba que as pessoas falam você e não eu. E é uma coisa que eu aprendi quando criança, mas que foi proibido pelo social  falar eu, gerou um preconceito. Falar eu, significa preconceituosamente ser muito cheio de si, ser prepotente, pedante, ficar se achando, como os meninos dizem hoje, egoísmo, egocêntrico e não é.  É apenas o adequado.. A conjugação do verbo com o pronome certo, pois “eu” é a primeira pessoa e “você” é a segunda pessoa. Falar – a gente, as pessoas – é muito generalizado, então, fica muito difícil para o outro entender  sem uma  linguagem clara. “Eu” quero isto de você é claro. Você não quer alguma coisa?  não falando de você, mas  falando de mim! Se digo eu quero sabemos que quem quer é você.

Alimentam – se pensamentos confusos, essa angústia que não sabemos direito qual a origem mas também alguma dificuldade de falar, de expressar seus sentimentos, suas emoções, obviamente, mas como surgiu toda essa confusão, como se chega exatamente a esse ponto?

Pela falta de se perceber, agora estamos num movimento melhor de auto-conhecimento, das pessoas buscarem investirem em si mesmas, as empresas saberem que o edifício empresa não é empresa, que são um conjunto de pessoas, o sentido de time, de equipe, a vê a seleção brasileira, de futebol, que antes era aquilo que a gente parava tudo pra ver e agora desinteressou.

Por que desinteressou? Porque não tem mais aquele time, aquela equipe, aquela garra, que transforma em produção de sucesso. Na empresa, na família, é tudo a mesma coisa, porque somos sempre gregais, sempre trabalhamos em grupo, a gente nasce em grupo, a gente vive em grupo, e ninguém quer morrer sozinho, não é verdade? Porque a gente é gregário por natureza, a humanidade, eu digo, uma unidade humana, o dia que for uma unidade humana vai ser ótimo. E o dia desta unidade depende de que haja uma boa comunicação e uma boa comunicação social grupal, familiar, empresarial, que seja, é uma boa comunicação, primeiro com um indivíduo, ele com ele mesmo, se não repercute pra fora tão deficiente como repercute por dentro e aí geram esses conflitos que você acabou de dizer e os conflitos geram angústia.

O  conflito interior, ele é gerado através de situações que não pensadas, que não são entendidas, começa a partir daí, e aí esse acúmulo é que gerando a angústia.

O que aconteceu é que no mundo não foi cultuado isso. Agora que começou. Nesse tempo todo histórico, cuidar de si mesmo, Sócrates falou, “conhece-te a ti mesmo”, mas isso demorou muito, porque primeiro o homem acostumado a ver por fora, os olhos também são voltados para fora, ele foi buscar fora, fora, fora, e não teve a cultura de buscar dentro da própria pessoa.

 

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